Educação SP, sem remuneração, Professores temporários recorrem a faxina e telemarketing

Graduada em Letras, a professora Edina Ribeiro viu a renda de cerca de R$ 3 mil como professora temporária da rede estadual sumir no início deste ano. Desde então, para dar conta do aluguel e dos gastos com supermercado, ela tem feito bicos na vizinhança.

“Semana passada passei algumas roupas e ganhei alguma coisinha, algo em torno de R$ 20. Também consegui fazer umas faxinas, trabalho em que dá para tirar às vezes R$ 80, R$ 100, R$ 120, dependendo do tamanho da casa”, conta Edina, moradora de Campinas.

Docentes temporários da categoria “O”, que precisam cumprir a chamada “duzentena”. Funciona assim: para evitar vínculo empregatício, após dois anos de trabalho os professores temporários são obrigados a ficar 200 dias afastados, sem direito a salário. Segundo estudo do Ipea, os temporários representam um quarto dos docentes da rede pública no Brasil.

“Tenho colegas trabalhando com tudo: telemarketing, faxina, escritório. Eu mesma estou mandando currículos sem parar. Mas está difícil. Penso até em ir embora para o Rio, onde tenho uma irmã, e ficar lá pelo menos até julho, vendendo picolé na praia.”

Segundo ela, mesmo se os temporários conseguissem na Justiça um mandado para poderem seguir com suas aulas, não teriam como fazê-lo, pois não haveria salas disponíveis para isso. De acordo com a Apoesp, só em 2015 três mil delas foram fechadas.

Edina foi aprovada no mais recente concurso promovido pelo Estado para lecionar na rede paulista, mas não há expectativa de ser efetivada. Do total dos 59 mil que passaram na prova, 21 mil ainda não foram convocados. A Secretaria de Educação do Estado não dá previsão sobre a convocação dos remanescentes, mas afirma ter prazo de dois anos para isso.

Percalços Edina não é novata na rede estadual. Entre 2007 e 2008, quando ainda estava na universidade, foi professora eventual, tirando entre R$ 700 e R$ 800 mensais. Graduada, passou a dar aulas como docente temporária da categoria “O”, o que lhe garantiu certa estabilidade ao longo dos últimos dois anos. Entretanto, desde o início do ano está impossibilitada de trabalhar devido às regras estaduais de afastamento, segundo as quais só poderá retornar em julho. Drama compartilhado por inúmeros colegas

Vida de professor

Formada em Ciências Sociais com bacharel em História, a professora Maíra Rodrigues tem passado boa parte de seu tempo elaborando e enviando currículos a empresas de telemarketing e lojas do comércio de Santo André, segunda cidade mais populosa do ABC paulista, onde vive. Nelas, os salários chegam a no máximo R$ 800.

Para pagar o aluguel de R$ 1.200 da casa que divide com duas amigas, Maíra conseguiu arrumar trabalho como professora em uma escola particular. Mas as quatro aulas semanais que oferece lhe rendem apenas R$ 400 – exatamente o necessário para permanecer sob um teto.

“Sinceramente, não consigo mais pegar nem ônibus para me deslocar pela cidade”, lamenta a docente. “Mesmo quando tinha o salário de professora era bastante apertado, aquela coisa de chegar ao mercado e chorar com os R$ 1.300, R$ 1.400 que recebia. Todo mundo sabe que professor ganha miséria. Mas é muito melhor do que ficar desempregado ou trabalhar com o que não gosta.”

A professora Maíra Rodrigues: ao menos por ora, apenas R$ 400 para manter seu sustento
Arquivo pessoal

A professora Maíra Rodrigues: ao menos por ora, apenas R$ 400 para manter seu sustento

Miçangas e faxina Graduada em Letras em 2010, Emile Apolônio Faria também teve seu contrato encerrado no ano passado, devido à duzentena. Desde então, ela envia diariamente currículos a escolas particulares. Mas ainda não foi chamada para nenhuma por falta de vagas. Devido à situação, a professora de 33 anos tem investido o tempo na produção de colares e pulseiras de miçangas, as quais vende a vizinhos e amigos com o objetivo de guardar algum dinheiro para o difícil ano que se inicia. Mas o bico não tem sido muito lucrativo.

“Acho que consegui juntar uns R$ 300 nestes últimos três meses”, lamenta a professora, que recebia entre R$ 1.300 e R$ 1.400 quando temporária da rede estadual. “Desde pequena sempre gostei do ambiente escolar, então me formei, me especializei, fiz pós… É complicada esta realidade de não haver perspectiva de voltar a lecionar.”

Formada em Biologia e Farmácia, Milena Bagetti afirma ter a mesma sensação. Há dois anos na rede estadual, ela diz que a falta de vagas para temporários não leva em conta a necessidade de as escolas terem mais professores.

“Como não sei quando vou ser chamada para a efetivação na rede estadual e tenho de cumprir a duzentena como temporária, estou enviando currículos sem parar para escolas particulares e faculdades. A prioridade é continuar no ensino”, diz Bagetti. “Mas talvez eu tente um emprego como farmacêutica. Vamos ver.”

Colar de miçangas feito pela professora Edilene: ganhos de R$ 300 em três meses
Arquivo pessoal

Colar de miçangas feito pela professora Edilene: ganhos de R$ 300 em três meses

Outro lado Procurada pelo iG, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo afirma que a duzentena é uma prática adotada em todo o setor público paulista e salienta o fato de ter conseguido reduzi-la em 2013. “Até então, o funcionário pegava gancho de 200 dias a cada ano; aumentamos o prazo para dois anos e, a cada 12 meses, o professor cumpre apenas uma quarentena (40 dias)”, diz por meio de sua assessoria. O órgão também se defende afirmando que os docentes temporários da categoria O não têm motivos para ficar insatisfeitos, pois “já tinham conhecimento das condições do trabalho ao assumi-lo”.

A Secretaria não confirmou o possível fechamento de três mil salas de aula somente neste ano, mas alegou que o número de recintos é distribuído de acordo com a demanda de alunos. “Salas que tiverem mais do que a máxima estabelecida – 30 alunos para o 1º ciclo (1ª ao 5º ano), 35 para o 2° ciclo (6º ao 9º ano) e 40 para o 3º ciclo (ensino médio) – ainda serão desmembradas em outras menores, caso haja necessidade”, conclui o órgão.

iG – último segundo

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